quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

O "LITTLE MAN"


Talvez ele saiba que estou a falar dele. Ou então ainda não sabe
Se não souber, quando acabar de ler o texto, sabe que é a ele que me refiro.
(ou até já a seguir...)
Abriu-me a porta de casa, no número 23, 4º andar
(só por aqui, já sabe que falo dele...)
e entrei.
4 anos de irmandade.
Nos primeiros dias, a descoberta.
Não conhecia o "Little Man", nem sabia de onde vinha.
Achava piada ao nome e ainda mais ao desenho, independentemente de o "Little Man" ser de chocolate ou não.
(há de mel e mais não sei de quê...)
Em casa dele era.
(agora perguntará ele, de que raio estou a falar...)
Chapéu à cowboy, coisa quase infantil num metro e bastantes de homem.
O mistério alimentou-se dias fio.
Tenho a mania de embirrar com estas coisas.
Até que um dia descobri, sem nunca ele saber, de onde vinha o "Little Man" de chocolate.
Do supermercado junto à linha, aquele alemão, que antes era pouco mais que um inestético barracão na termal cidade da rainha.
Dezenas de "Little Man" prostrados numa prateleira, sorrindo que os levassem, nem sonhando com o banho de leite que tomariam antes de mergulharem o escuro da digestão.
(sim, é para veres quão "invulgar" é a minha delirante cabeça...)
Ele levava-os metodicamente. Abriam-lhe a manhã ou, tantas vezes, fechavam-lhe a tardia noite, quando as lagartas de ferro ficavam paradas sobre o frio dos carris.
(nunca sonhaste que eu reparava nestas coisas e que, volvidos mais de 10 anos, tudo aqui está, guardado de fresco...)
Agora a parte pior...
Nunca provei os "Little Man".
(acreditas?)
Tanto tempo aí e sempre os respeitei. Nunca tirei um para amostra...Não me via degustar algo que o meu imaginário carregou até hoje.
Talvez se o tivesse feito, não conseguisse escrever hoje sobre ele.
Ele o "Little Man" e ele que és tu!

Ultimato: Fica combinado, um dia que nos voltemos a ver, ficas encarregue de arranjar uma caixa de "Little Man" de chocolate. Talvez possamos falar sobre o seu conteúdo, certamente sobre o seu gosto e, ainda mais provavelmente, de como coisas tão simples se revelam, afinal, tão marcantes!

1 comentários:

Mário disse...

Finalmente um texto à António Luís Lobo Antunes! Daqueles que eu me habituei a ler e a perder-me nas linhas
(não as de ferro, as tuas)
escritas de leitura fácil, de perder na imaginação e querer mais no final.
Surpreende-me o conteúdo, e mais ainda o Big Brother a que alguém foi sujeito durante anos a fio, naquela casa perto das linhas
(não as tuas, as minhas)
de caminho de ferro, junto à estação, a tal estação de onde se avistava o barracão de nome alemão onde se compravam uns pacotes de cereais, os tais que deram origem a estas magníficas linhas,
(não as minhas, as tuas).
O tal que não sabe a quem se referem as linhas
(as tuas linhas, não as minhas)
deveria ter mais cuidado e esconder os ditos cereais. Obviamente que na altura já seria previsível que alguém viesse escrever um texto sobre os ditos, pelo que todo o secretismo sobre a questão era, na altura, uma prioridade. Esse alguém ao deixar o comboio estacionado sobre a linha
(as minhas linhas, não as tuas)
às 2 da manhã, deveria ter optado por comer uma peça de fruta ou apenas um copo com leite ao chegar a casa, antevendo aquilo que, 10 anos depois seria difundido na blogosfera em forma de linhas
(não as minhas, as tuas)
deitanto por terra algo que eu, apenas eu, julgava ter direito a preservar, quando os comia às escuras, com a porta fechada à chave e sem barulho.
Fui descoberto! A minha vida não voltará a ser a mesma. As linhas deste texto
(as tuas, não as minhas)
foram lidas, vinha eu no Alfa Pendular de Faro para Lisboa, instalado confortavelmente num comboio que deslizava na planície alentejana, e sorri ao pensar nas linhas da vida, as tais que se enrolam e desenrolam e que (felizmente) se vão novamente cruzando, linhas imaginárias, linhas sorridentes, linhas da vida...
(nem as tuas, nem as minhas... as de toda a gente!).

Enviar um comentário