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TOSTAS MISTAS

Publicado por António Luís | Marcas | Publicado em 29.11.09

Se calhar nunca te tinhas apercebido, mas aprendi o que são "Tostas Mistas" contigo (ouvia gente a pedi-las nos cafés, mas eu é mais torradas, nem a curiosidade se me despertava) quando ou chegavas tarde, ou saías cedo (ficava aquele cheiro no ar) e a pressa te dizia como fazer uma refeição rápida (o cheiro às vezes durava horas, pela casa toda) e depois descias os sessenta e sete degraus dos quatro andares que separavam a tua casa do chão num tropel de locomotivas a diesel a rebocar contentores carregados de vagares (então, para onde é hoje a corrida?) dizias com alívio que estavas de reserva em Santa Apolónia. (outras vezes o telemóvel tocava e falavas os últimos 32 degraus, já depois de passares pela vizinha cujo gato defecava numa liberdade de Abril pela varanda mesmo por baixo de nós) Na casa, a sombra das Tostas Mistas, ou melhor o seu cheiro e 3 ou 4 migalhas no lava-louça, que havia a água de as levar quando a loiça se decidisse lavar sozinha (tentámos que ela fizesse isso várias vezes, mas acho que não conseguimos e acabávamos nós, de cabeça encostada ao armário por fazê-lo, alternadamente no comando do esfregão ou do escorredouro) de modo que a loiça lá estava, as migalhas e o cheiro semeado pela casa (pão de forma, fiambre e queijo, com restos pegados na tostadeira entretanto desconectada da corrente) eu no quarto agarrado aos meus verbos, aos meus estágios, à minha arte, com o cheiro omnipresente, sem armas para o expulsar, apenas portas abertas (a tua casa não tinha janelas - ou melhor, a tua casa foi a nossa casa durante quase uma mão cheia de anos) tinha portas de caixilharia vermelha que corriam escorreitas sobre caixilharia igualmente rubra (nós dois do Sporting e eu cheio de pontos de interrogação por que raio um sportinguista compra uma casa de janelas vermelhas) que abria de modo a estabelecer salvadoras correntes de ar. Não que o cheiro fosse mau, não, tornava-se apenas aborrecido porque teimava em sair dos espaços, de modo que, novamente sem o saberes, aprendi o que são Tostas Mistas em tua casa e hoje, não as trocando por uma bela torrada, elas não me passam indiferentes porque o cheiro, o cheiro que as portas vermelhas não varreram do meu nariz, está cá, na memória, nos cafés e, estranhamente, na minha casa, já que acabei de as fazer para os meus herdeiros (o cheiro tive de o mandar embora abrindo portas e janelas de caixilharia verde) que as adoram, mas (nós dois do Sporting) só que agora tu não estás cá, apenas as tostas e o seu cheiro que me fizeram vir aqui escrever isto.

Comentários (2)

  1. Existem vários modos de comentar isto.
    O comentário da forma: sem nada a acrescentar, sabes que é desta forma que gosto de te ler, tão ao jeito de um alguém que ambos sabemos quem é, mas com aquele teu toque que dá prazer, que nos leva, que abre os sentidos.
    Depois há o comentário do conteúdo: porra! As coisas que este gajo se lembra! Uma tosta mista é uma tosta mista, pá! Para um gajo solteiro, sempre a mil, existe refeição mais rápida de cozinhar?
    Espero que fiques por aqui em matéria de odores!...
    Obrigado por mais um momento de subida ao pódio, neste teu estádio!

  2. Odores?!...
    Não sei.
    Mas não garanto outras história e memórias.
    Espero que não te chateies com elas!

    Abraço.

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