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A VIDA EM 91 PÁGINAS

Publicado por António Luís | Marcas | Publicado em 22.11.09

Terminada a leitura de "A Morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstoi, fica na memória um pequeno grande livro. Trata-se de uma eterna viagem pela vida de um "comum mortal" e que o conduz, como a todos nós, rumo à morte. Ora Ivan Ilitch é um quadro superior russo, da área da justiça, com família e vida social. A dada altura, quando apanha pedaços de problemas da sua vida, julga entrar na curva da decadência, corporizada na profissão e nas constantes flutuações resultado da política e dos habituais esquemas "obscuros" do poder e também reflectida no parco rendimento que deixa de se ajustar ao que considera "um modo de vida digno". Contudo, o crer e o submundo nem sempre muito claro da justiça, por uma vez funcionando a seu favor, acabam por levá-lo de novo ao topo, subindo com isso a sua condição social e a "dedicação da família", já que esta, face ao ameaçador desmoronar da situação anterior, já o estava a desprezar, digamos. Ivan Ilitch entusiasma-se de tal forma com a sua nova condição que tudo nele é força, crer e querer. Constrói, quase peça a peça a sua nova casa, aquele com que sempre sonhou e que sempre quis oferecer á família e amigos. Um dia, num bricolage do seu futuro escritório cai. Não ligou muito à queda. Coisa simples, uma queda. Uma queda de que se ergueu de pronto. Contudo, a queda provocou lesões que, paulatina e silenciosamente foram desenhando a morte de Ivan Ilitch. Da glória e do sucesso, familiar, social e económico, prefigura-se, ao longo da sua agonia, o desmoronar de toda uma construção alicerçada no conforto material que nunca consegui tapar as suas verdadeiras carências, aquelas que nenhum dinheiro ou estatuto compra. Ivan Ilitch acaba numa morte dolorosa, errante entre médicos, entre os seus medos, anseios, esperanças e humilhações. Uma morte cujo rosto é o de milhões de mortos, de milhões de pessoas, ontem, hoje e sempre. E prova como tudo é tão frágil e efémero... Lev Tolstoi, escreveu sobre a vida em 91 páginas, num livro que fala, ironicamente, da morte.

Comentários (1)

  1. De Tolstoi apenas folheei com agrado a "Anna Karenina". Tive, em 2006, a oportunidade de lhe copiar a viagem de Moscovo a Sampetersburgo, na "minha" Rússia de sonhos. Conta Tolstoi: "Pela madrugada adormeceu na poltrona e ao acordar já era dia. O comboio aproximava-se de Sampetersburgo"... Eu também fui acordando aos poucos naquela Rússia que lentamente foi deixando de ser minha, restando agora uma ténue recordação. Tal como em "A Morte de Ivan Ilitch", a Rússia da minha infância deu lugar a uma outra Rússia que vive num pseudo conforto social e material, mas que não consegue tapar as suas verdadeiras carências...
    E por agora, deixo os pensamentos sobre a morte. Estou a ler o genesis, visto a pele de Caim e deambulo por uma época de guerras, traições e enganos... As tais que perduram ao longo dos tempos!
    Forte abraço.

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