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O MEU TREMENDISMO EXPLICADO

Publicado por António Luís | Marcas | Publicado em 27.5.10

 Aldeia do Talasnal - Serra da Lousã

É frequente ter tendências tremendistas. Surgem nem sempre por estados de alma, mas frequentemente por "quedas na realidade", escondida por um dia-a-dia castrante.
Não diria que se trata de uma espécie de fatalismo. É, antes, uma percepção organizada que faço, não raras vezes de forma (in)consciente.
Não tenho aparecido muito por aqui. Nota-se
Tenho escrito banalidades, escondidas atrás de "diálogos imaginários", todos eles transportados por a para a realidade que, de tanto modo, me/nos condiciona.
Na passada segunda-feira, na pouca televisão que vejo, fui "esmagado" por uma breve reportagem, passada no "Sinais de Fogo" de Miguel Sousa Tavares, alusiva ao habitante - único - de uma aldeia perdida na serra algarvia.
Aquilo foi um retrato cru da realidade rural portuguesa.
Ali estava, um homem, vergado - literalmente - ao peso da sua idade, da sua vida, do seu caminho, rodeado de silêncios, de gatos e de nadas. 
Um homem - Zé - à espera da morte, cuidando das couves, catando ervas, dedilhando  ausências entre trémulos dedos, pele gasta e queimada pela pouca piedade do sol, conversando com a televisão, vigiando as casas nuas de gente, as moscas zumbindo vacuidades...
Como disse e bem Sousa Tavares (e não é frequente concordar com ele), está ali o retrato de erros sucessivos de planeamento deste Portugal urbano, apalermado numa faixa entre Braga e Faro, perdido em vidas estúpidas, em corridas para mãos cheias de nada e promessas ocas de bem-estar.
Sou um ruralista. Apesar de parte da minha vida ter sido, até agora, passada em cidades - Coimbra, Caldas da Rainha, Funchal, é à ruralidade que pertenço, porque foi nela que me fiz pessoa e aprendi muito do pouco que sei.
Pertenço aos seus silêncios, ao murmúrio das árvores, ao "cantar" corrido das barrocas, à vinha, à horta... Aos cães a ladrar, aos gatos perdidos, aos tractores, às sementeiras...
Portugal está a perder, desgraçadamente, uma inestimável riqueza. Abandonando o interior, as aldeias, deixando resistentes como o Zé para contar, vergados, a lenta história de morte de uma parcela do território, entregue agora aos ditames do progresso que se cozinha em brandos lumes, na suprema sapiência dos gabinetes urbanos.
O tempo, de forma tremenda, não duvidem, vai acabar por re-escrever, dramaticamente, uma outra história!

Comentários (2)

  1. Como ruralista que também sou não pude deixar de comentar.
    Talvez tenham sido erros de planeamento mas não penso que "o tal" Zé estivesse alheado "à espera da morte", ele simplesmente vive a sua vida e embora seja o único habitante de um paraíso não é por isso que deixa de viver bem.
    Sim, porque viver bem não é ter vizinhos que nem bons dias nos dão, não é ter as comodidades fúteis a que estamos aclimatados.
    Quando volto ao meu cantinho sabe-me bem ficar rodeada "de silêncios, de gatos e de nadas" é bom passar tempo infinito a absorver a sabedoria dos que vivem como o Zé, essas pessoas possuem um certo brilho que esse sim está em extinção.

  2. Trequita!
    De acordo.
    Invejo o Zé que vive mergulhado no silêncio, esse ente cada vez mais abstracto da presente modernidade.
    E sim, é gente com uma sabedoria imensa que, de modo desgraçado, está em vias de extinção.
    A aldeia que ele mantém "ligada a si", desaparecerá quando a morte decidir trilhar o carreiro que para ali leva.
    Com ele, morremos todos nós mais um pouco!

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