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A FACTURA

Publicado por António Luís | Marcas | Publicado em 21.6.10

Domingo à noite.
A casa mergulha no silêncio preparatório de mais uma semana de trabalho.
Um professor embrenha-se na avaliação. Coloca-se online e lança as notas dos alunos no sistema informático.
Entre desgraças e glórias, o seu espírito salta entre o gozo e o enfado quase triste.
Esquecidas as desgraças, que não valem na maior parte dos casos uma noite potencialmente mal dormida, brilham os seus olhos quando lança níveis altos, se lembra dos seus alunos, da sua atitude e da sua dedicação e do prémio que, tão merecidamente, acabam de merecer e conquistar.
O mau da coisa é que em 63 alunos, apenas 4 transmitem essa grata sensação do dever cumprido.
No resto, entre a mediania e a (muita) mediocridade, pesados os factores condicionantes da escola, internos e externos, fica a pairar uma sombra perturbadora, que não clarifica (sempre) o papel do professor e lhe transmite uma inquietação que desgasta e consome.
Quando aqueles que catalogam ou rotulam a profissão docente, com a animosidade que lhes é conveniente, de leve e de privilégio, convida-los-ia a conviver cada vez mais com esta sombra e esta perturbação, repetida e agravada com o caminhar dos tempos e com a descredibilização crescente da escola, o tal sítio onde, entre muitas coisas, são depositadas crianças, com vista a tornar possível o desvario da vida actual...
A factura vai chegar, com juros e uma insuportável (in)correcção monetária.

Comentários (1)

  1. Por vezes olho para todos os meus alunos e, num momento reflexivo, penso o que será deles daqui a uns anos. Alguns certamente me surpreenderão com os seus sucessos, outros nem tanto. hoje em dia já fico feliz por um aluno aprender alguma coisa por isso se der mais que uma positiva, para mim, já é um sucesso, é triste mas é verdade!

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